sábado, fevereiro 02, 2013

lui et elle.


—  Oi. —  Eu disse em busca do seu sorriso.
—  Olá. —  Ela não sorriu.
—  Como se sente hoje?
—  Não sei dizer...
—  Igual? —  Eu aprofundei os olhos nela.
—  Talvez diferente.
 Esperei por uma palavra a mais, ela não disse.
—  Diferente como? —  Procurei o problema em seus olhos que agora se fecharam lentamente.
—  Me sinto diferente. Há uns dias vem acontecendo umas coisas e isso me mudou.
 Ela se recostou na poltrona e abriu os olhos, diretos aos meus. Ela parecia me enxergar agora.
 Esperei, não disse nada.
—  Que tipo de coisas, Evelyn? —  Cruzei as pernas, me senti embaraçado.
—  Coisas, coisas loucas. —  Ela então sorriu rápido, eu senti um alívio.
—  "Coisas" em casa?
—  Não.
—  Onde? —  Franzi a testa, eu precisava entender.
—  Na minha cabeça. —  Eu entendi.
 Fiquei em silêncio, ela então disse:
—  É estranho porque tem a ver com uma pessoa.
—  São sentimentos de amor?
 Evelyn era uma adolescente muito bonita, tinha 18 anos, tinha um rosto angelical, parecia feliz, mas não era pois sentia indiferença pelas pessoas ao seu redor.
—  Sim, acho que sim. —  Ela continuou.
—  Eu sempre me senti rejeitada, embora quem rejeitava os outros sempre fui eu... —  Ela parou e eu esperei, então ela despejou tudo sobre mim.
—  Eu sempre me senti sozinha, na verdade sempre fui sozinha, meu pai era o único que me dava atenção, isso quando tinha tempo, minha mãe nunca se importou comigo, depois meu pai morreu, eu era pequena, tinha oito anos e isso significava fardo pesado pra minha mãe, e ela me deixou sozinha mais uma vez, numa estrada, sem casas ou moradores, absolutamente nada por perto, me deixou com uma mochila e um urso de pelúcia que eu tinha. Eu andava em busca de algo, a procura de alguém, mas o que havia? nada. Eu andei por horas até que cheguei numa fazenda, fazia frio, eu estava com fome, eu não chorei porque não havia mais lágrimas, todas elas se foram com meu pai. Um casal de idosos, donos da fazenda me abrigaram lá, eles cuidaram de mim, me deram carinho, mas eu queria mais, então com 14 disse adeus pra eles e tentei seguir minha vida, embora eles não quisessem que eu fosse, fui presa diversas vezes na cidade por tráfico de drogas, afinal eu precisava me sustentar, já que de outra forma eu não conseguiria fácil, e depois de toda essa tempestada na minha vida eu vim parar aqui, sabe... —  Ela chorava muito, e eu só sentia vontade de abraça-lá, mas deixei que continuasse.
—  Eu não encontrei o que queria perdida por aí, eu não tinha o que eu precisava com meus pais, nem com os fazendeiros que cuidaram de mim, eu nem sabia se eu estava buscando algo realmente na vida, mas eu encontrei enfim.
—  Evelyn, você nunca me contou sobre seu passado, é um grande progresso.
—  Sim, é... estou indo embora de novo, marquei essa consulta hoje só pra te dizer adeus. Você me ajudou, me ajudou muito, mas o que eu buscava e encontrei, você não pode me dar.
 Senti que meu coração fosse parar, minha reação foi rápida, eu me levantei da poltrona, puxei ela e abracei, abracei como se ela fosse parte de mim, apoiei sua cabeça em meu peito, e não disse nada.
—  Eu buscava amor, você me ouviu e isso nasceu, talvez eu só precisasse de alguém que me entendesse, mas agora eu tenho que ir. —  Ela saiu do abraço e me olhou nos olhos.
—  Evelyn...
—  Eu te amo.
 Eu não sabia o que fazer, mas enquanto ela saia da sala eu disse quase que em um sussurro:
—  Eu sempre amei você, desde o início.

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